Ah, as maravilhas da pirataria! Numa barraquinha perto de casa os últimos episódios de Jay Jay o Jatinho estavam lado a lado dos mais recentes lançamentos pornográficos do estúdio Brasileirinhas, diversão para a família toda!
Eu não lembro bem quando que as barracas de DVDs piratas começaram a brotar, mas quando mal esperava elas já tomavam as ruas, ainda mais na Liberdade. Isso foi já quando eu tinha uns 10 anos então a seleção de filmes infantis dos vendedores de DVD pirata tiveram um papel fundamental na formação do meu caráter, lembro ainda como amei de coração "O Planeta do Tesouro" (que peguei randomicamente numa vez que meu pai me deixou escolher um filme pra pegar), uma adaptação sci-fi do clássico "A Ilha do Tesouro" do Robert Louis Stevenson feita pela Disney, e ainda acho que esse filme foi o melhor feito pela Disney.
E não seria a Liberdade que nós conhecemos se não tivesse um modo de extorquir os otakus, Nesse caso era uma lojinha no Shopping Sogo que vendia uns DVDs de anime, seis episódios por DVD com um menu horrível feito no Movie Maker provavelmente, sub roubada de fansubber e tudo mais, em módicos preços de uns 15 reais por DVD. Quero dizer, era um roubo, mas abriu várias portas pra mim e amigos na época, eu vi grande parte da saga de Kyoto do Rurouni Kenshin por esses DVDs e foi a época quando não manjava muito de como baixar as coisas na interwebs mas mesmo assim queria assistir as otakarias.
E foram vários anos a fio comprando mais e mais DVDs piratas dos últimos lançamentos do cinema internacional, eu acabei descobrindo como baixar os animes lá por 2008~2009 e lembro até hoje o primeiro anime que baixei completo: Code Geass. Enquanto isso as lojinhas que vendiam DVDs de animes piratas já definhavam, afinal pros otakus a pirataria era quase requisito a esse ponto, e nas ruas da Liberdade já se via os vendedores mais espertos vendendo doramas e filmes japoneses pros velhinhos que por lá rondavam, afinal tá aí um público que não aprenderia a mexer em torrent tão cedo assim.
Existem ainda barracas de DVDs piratas por aí, mas elas estão numa constante queda e a recaída pra pior foi por conta de uma coisa que ninguém esperava que ia chegar: o Netflix. Esqueça os torrents e site ilegais, a preguiça venceu de uma vez por todas: por taxas módicas mensais agora você tem a seu dispor enormes bibliotecas de filmes, séries e animes (Crunchroll no caso), sem perigo de ter pego um DVD de pornô por engano na capa do Bob Esponja, sem perigo de baixar um malware procurando um site pra assistir Pantera Negra e sem o incômodo de ter que sair de casa pra ir pra uma locadora, dessa vez a solução veio pra ficar.
E acho que as plataformas de stream são realmente a evolução mais óbvia pra modernidade, mas é uma pena do ponto de vista mais nostálgico, mais romântico. O Netflix pode ser melhor que as locadoras, o Kindle (e a Amazon de modo geral) pode acabar com as livrarias num futuro próximo e o Spotify veio com uma solução legal (do ponto de vista das leis) pra falta de lojas de música no ocidente, mas essas soluções são tão frias, tão horrivelmente práticas que me deixam meio triste.
Havia meio que um fator social e um certo romantismo em ter que sair de casa pra ter uma diversão pra noite de sábado, eu peguei só o finalzinho da era das locadoras, e numa idade muito tenra pra lembrar bem de qualquer coisa, mas só de ir pra locadora e explorar os novos lançamentos e se aventurar entre os clássicos que você não tinha visto ainda, ou ainda ficar conversando com os atendentes, a ida pra locadora era um evento, era parte da experiência em si de ver um filme. Ir pras barraquinhas de DVD pirata já não era mais um evento tão familiar e os downloads e stream acabaram de vez com isso.
Eu em particular tenho poucas saudades dos DVDs piratas, acho que é uma forma horrível de ganhar dinheiro sobre a propriedade intelectual de terceiros e ainda financiar crimes em alguns casos, mas as locadoras eram magia pura, e foram uma coisa que durou décadas e acabaram num piscar de olhos.
Uma coisa que a modernidade está nos fazendo esquecer é que a praticidade não é sempre o ideal a ser alcançado, há uma beleza na complexidade sem sentido e no romantismo por puro capricho, ler um livro no Kindle pode ser mais prático, barato e rápido que ir a uma livraria e garimpar por um livro que você não tenha lido ainda, mas é a mesma coisa?
A praticidade está matando o romantismo.
Enfim, é isso aí, acabei nem falando tanto de DVDs piratas assim.
vlwflw té mais
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