terça-feira, 26 de maio de 2026

ESPANTO

Eu, como toda pessoa em sã consciência com um pouquinho de dinheiro sobrando, decidi comprar um PS Vita em pleno 2026.

 

Claro que estou jogando a VN de Steins;Gate

 

Eu sempre preferi os consoles portáteis, meus DSs (original e lite) devem acumular mais de mil horas de jogo e, como qualquer adulto desiludido em plena crise dos 30 anos, decidi tentar resgatar um pouco da alegria que eu tinha. E que forma melhor senão gastando 2k num console de mais de dez anos atrás?

Logo depois de gastar um fim de semana inteiro configurando e baixando jogo pro Vita eu percebi uma coisa: eu não tava curtindo.

Outro dia eu tava falando com meu amigo sobre isso e acho que falei sobre esse sentimento no post sobre Shibuya: o espanto.

Eu lembro que era o trabalho da disciplina de Introdução à Engenharia Naval, o professor pediu um trabalho livre sobre qualquer assunto pertinente à Engenharia Naval desde que causasse ESPANTO. A ideia vinha de uma citação do Borges que eu nem lembro direito bem, mas em suma era que o espanto era o que marcava as pessoas, não a alegria ou tristeza ou qualquer coisa do gênero.

E apesar de ser uma disciplina meio aleatória feita só pra dar um ânimo pros recém segundo-anistas do curso, esse conceito do espanto é algo que me marcou muito, e é um negócio que uso pra explicar momentos marcantes da minha vida desde então, e também como vejo momentos marcantes de outrora que deixaram marcas em mim.

O momento que mais me causou espanto, como citei anteriormente, foi a primeira vez que vi Shibuya de noite. É um momento que falo sobre constantemente, junto com a primeira vez que fui pra Shinjuku ver show e a primeira vista que tive de Tokyo de cima da via expressa.

É essa ânsia, é a falta de palavras, é o momento que você perde totalmente o raciocínio ante o que está na sua frente.

E isso pra mim sempre esteve presente nos jogos: na dança da Yuna no Final Fantasy X, na descoberta do continente perdido no Final Fatansy III, na descoberta de Tokyo em Shin Megami Tensei IV, acho que todo jogo open world também tem pelo menos uma localização feita pra você se espantar, assim como todo jogo focado em história tem um ponto chave pra te marcar.

Faz muito tempo que não pego um jogo longo pra jogar de verdade, com exceção dos Pokémon que são obrigatórios, e eu sinto uma falta tremenda de ter uma imersão boa e me sentir de verdade dentro de um universo diferente, faz quanto tempo que não me espanto de verdade com um jogo? 

Acho que é um problema meu em tentar caçar sentimentos que tive antes. Quando fui pro Japão de novo eu não senti o mesmo espanto do que quando fui em 2019, obviamente sou uma pessoa diferente e fui muito mais preparado e tudo mais, mas sou teimoso o suficiente pra continuar tentando ir atrás de coisas que não existem mais.

Obviamente tive novos espantos em lugares novos, a Estação de Kyoto e o Delta do Kamogawa foram alguns exemplos disso, dois lugares que nem planejei ir, mas sinto falta de sentir algo parecido em jogos, de pegar um universo que realmente me engaje, que eu me sinta deslumbrado novamente.

"Ah, isso é depressão não diagnosticada"

Certamente é, virar adulto tem sido menos difícil do que eu esperava, mas bem mais decepcionante também. 

Isso me lembra também essa entrevista com o Emori Takeaki da banda Citrus, uma das minhas favoritas.

E essa frase desperta mais ou menos o mesmo sentimento:

"Let’s say that there was a cute little three year-old girl walking over there. We would be like, “Oh, how cute.” But if you looked at her for five minutes straight, you’d get sick of it, right? But let’s say she was walking around with a metal yakitori skewer in her mouth. You would watch in a state of panic, for much longer than just five minutes. So I always emphasize the “danger” in whatever I make. It’s the same with Citrus, yoga’n’ants or my graphic design. Cute and pretty things have a surprisingly short lifespan. Without something dangerous or scary, I don’t think you can really hook anybody in." 

Falta espanto na minha vida, ou como meus colegas de trabalho dizem: falta um carro velho e uma namorada que curte gastar seu cartão de crédito.

Pra sonorizar este post, nada melhor que Citrus que foi citado aqui:


 É isso mesmo, espanto e suspense em música.

E é isso pessoal, estou sem postar faz tempo e nem atualizei vocês do que anda acontecendo depois da minha viagem, mas mais posts virão.

vlw flw té mais! 

domingo, 10 de maio de 2026

Inventei termos em inglês para momentos bacanudos em shows

Eu amo ir pra shows, disso vocês já sabem, mas tem duas situações que considero ser as razões pelas quais eu vou tanto em show: as músicas em que entro no flow state e as que me dão sense of wonder, eu estou só cuspindo estrangeirismos que acabei de inventar aqui, mas vou tentar explicar melhor:

Flow State

Cara, pra mim pelo menos (e pro meu gosto musical), é um negócio muito raro: eu tenho que estar na pista de um show que seja relativamente agitado (mas sem mosh pit, eu realmente não curto mosh, me julguem), numa música que eu saiba a letra e onde o público esteja numa vibe totalmente alinhada com o show, resumindo: é uma experiência coletiva. Eu não estou aqui tentando fazer uma competição de qual o melhor tipo de show mas essa experiência jamais aconteceria num show da Ichiko Aoba ou do Ohzora Kimishima, porque esses são artistas que você aprecia, não interage, pelo menos num sentido mais literal.

E pra ilustrar bem eu acho que só senti essa experiência de uma forma quase palpável em dois momentos: quando o Shinsei Kamattechan tocou Rock'n Roll wa Nariyamanai no Studio Coast em 2019 e Odottebakari no Kuni tocando ghost no Shinjuku Loft ano passado. 


No caso do Shinsei Kamattechan eu já tava com medo de ser amassado no mosh pit com menor idade média do Japão ou do Noko mergulhar pelado perto de mim, então eu tava meio afastado, mas quando começo Rock'n wa Nariyamanai eu só entrei na muvuca mesmo e cantei do fundo dos meus pulmões o clássico 最近の曲なんかもうクソみたいな曲だらけさ!   (ou traduzindo: a música de hoje em dia é uma merda! e continua no verso seguinte você diz isso não importa quando) é um hino de rebelião da juventude reprimida japonesa, e isso que a música foi feita em 2010!! Mais atual que nunca.

O show do Odottebakkari no Kuni foi interessante porque eu basicamente só conheço duas músicas da banda: boy e ghost, e eles só tocaram ghost nesse show que fui. Mas a banda é bem conhecida e é bem raro eles tocarem em casas de show pequenas como a que fui (Shinjuku LOFT) e deu pra sentir que eles têm um som mais de festival mesmo. Eu tava só no feeling durante o show mas quando começou ghost eu me arrepiei todo, eu nem sei a letra da música muito bem mas o refrão gritando GHOOOOOOSTT com o público inteiro cantando foi muito foda. Eu CHOREI durante ghost, a música é bem obviamente otimista e eu lá, com o futuro incerto e recém-demitido, me senti aliviado e otimista nas possibilidades futuras. Eu saí do show e, lá no meio de Shinjuku, tive certeza que hora ou outra ia dar tudo certo.

Mas enfim, esse flow state é um negócio realmente foda de sentir, porque pra mim o show da Ado por exemplo tinha tudo pra ter um desses momentos, mas eu realmente não consegui sentir, o show do eastern youth que foi no mesmo festival do Kamattechan também era um potencial pra isso, mas achei que a banda não estava tão animada. Então é quase um eclipse solar onde a banda/artista tem que se alinhar com o público e eu tenho que estar alinhado com tudo isso.

Acho que dá pra comparar essa sensação com você ver um gol decisivo do seu time no estádio.

Sense of Wonder

Essas situações são bem mais comuns que os Flow State mas ainda assim raras. São aqueles artistas que te assombram e calam todo o público pelo talento.

Essas situações meio que dependem também não só do artista como do público e do local mas não acho que precise ser o eclipse solar que é o flow state. O Sense of Wonder é quando a música é tão assombrosa e linda que cala todo o público. Uns exemplos que presenciei dessa situação foram os shows da Ichiko Aoba, Ohzora Kimishima e Ryuichi Sakamoto em algumas músicas em particular.

 


 

 A Ichiko Aoba tocando Kikaijikake no Uchuu é o clássico do sense of wonder, é uma música feita pra ser o ponto alto dos shows dela e ver ao vivo realmente justifica cada centavo que gastei pra vê-la... duas vezes! 

No show do Ryuichi Sakamoto, quando ele veio pra cá tocar no Ibirapuera na ocasião de abertura da Japan House, obviamente que o sense of wonder foi no clássico Merry Christmas Mr Lawrence. Acho que foi a pessoa mais talentosa que vi ao vivo.

E o Ohzora Kimishima acho que foi um negócio à parte. O show dele só com o violão lá no Shinjuku Face foi tipo ver um gênio selvagem em ação. Nenhuma gravação de estúdio faz justiça ao espetáculo que é ver ele ao vivo, o que pra mim é uma oportunidade desperdiçada: um álbum ao vivo do homem seria do caralho. O destaque no show dele foi 午後の反射光, eu geralmente translitero títulos em japonês mas eu nem me atrevo a mexer nesse aí.

O State of Wonder é a sensação de você estar vendo uma obra de arte que te tira o fôlego, seja num museu ou galeria e até, voltando a analogias com futebol, ver o Ronaldinho driblar meio campo pra fazer um golaço em 2005.

Mas enfim, acho que essas duas sensações, flow state e sense of wonder, são o que busco em todo show que vou. Tem uns shows que claramente não vão me providenciar isso, e pra mim tudo bem também, porque tem show que vou pra me divertir, mas quando presencio algo excepcional é muito legal.

Esse ano só estou com o show do Toe programado, as bandas nacionais que gosto não tocaram em São Paulo neste ano, mas nem estou muito chateado porque ano passado fui em show pra caralho.

E é isso pessoal, eu estou com uma preguiça danada de escrever post ultimamente mas vou voltar a escrever quando der, gastei uma grana num Switch 2 e talvez saia um post sobre games, que é assunto raro por essas bandas.

vlw flw té mais!